Riscos ocupacionais fazem parte da rotina de médicos-veterinários e reforçam debate sobre proteção profissional
24/08/2026 – Atualizado em 24/08/2026 – 2:40pm
A morte da médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, após um acidente envolvendo um cão de trabalho do Senado Federal, trouxe à tona uma realidade pouco percebida fora da profissão: cuidar de animais também pode significar trabalhar exposto a riscos. Da clínica ao campo, de laboratórios ao manejo de animais silvestres, de produção ou de trabalho, médicos-veterinários exercem atividades em ambientes que podem envolver riscos biológicos, químicos, ergonômicos, físicos e de acidentes.
Enquanto as circunstâncias do caso ocorrido em Brasília são investigadas pelas autoridades competentes, o episódio chama atenção para um tema permanente no exercício da Medicina Veterinária: a prevenção de riscos ocupacionais e a necessidade de condições adequadas de trabalho.
Para o médico-veterinário e assessor técnico do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Fernando Zacchi, a diversidade de áreas de atuação faz com que a prevenção comece pelo reconhecimento das particularidades de cada atividade.
“Existe uma percepção muito associada ao médico-veterinário dentro do consultório, mas a profissão é muito mais ampla. Há colegas trabalhando diariamente com animais de grande porte, animais selvagens, em resgate em locais de difícil acesso, com agentes diversos em laboratórios, ou expostos à violência em atividades de inspeção e fiscalização além de outros riscos psicossociais inerentes ao seu trabalho. São ambientes completamente diferentes e cada um deles apresenta riscos que precisam ser identificados, prevenidos e gerenciados”, afirma.
Prevenção começa antes do atendimento
No trabalho direto com animais, uma das principais medidas de prevenção é avaliar previamente as condições em que a abordagem será realizada. Espécie, porte e comportamento são alguns dos fatores a serem considerados, mas não os únicos. Dor, medo, estresse, estado de saúde, ambiente, histórico comportamental e finalidade para a qual o animal é mantido ou treinado podem alterar sua resposta à aproximação e ao manejo.
A observação de sinais comportamentais e a escolha de técnicas de manejo e contenção compatíveis com cada situação ajudam a reduzir riscos tanto para o profissional quanto para o próprio animal. Dependendo da atividade, também podem ser necessários equipamentos específicos, apoio de outros profissionais e adequação do espaço onde o procedimento será realizado.
“A contenção não pode ser pensada de maneira padronizada para todos os animais e todas as situações. Antes de qualquer procedimento, é importante avaliar o animal e o ambiente, reconhecer sinais que indiquem medo, dor, estresse ou possibilidade de reação e definir a abordagem mais adequada. Em algumas situações, inclusive, a decisão mais segura pode ser interromper ou reorganizar o procedimento”, explica Zacchi.
Os cuidados também variam de acordo com o campo de atuação. No manejo de grandes animais, por exemplo, características como peso, força, movimentação e instalações disponíveis precisam integrar o planejamento da atividade. No trabalho com animais silvestres ou de comportamento pouco previsível, protocolos específicos e equipes capacitadas assumem importância ainda maior.
Em clínicas, laboratórios e hospitais veterinários, além dos riscos relacionados ao manejo, há possibilidade de exposição a agentes biológicos, materiais perfurocortantes, medicamentos e outras substâncias utilizadas na rotina profissional. Estabelecimentos de produtos de origem animal, propriedades rurais e ações de fiscalização apresentam, por sua vez, outros conjuntos de riscos que exigem medidas próprias de prevenção.
Por isso, medidas como utilização adequada de equipamentos de proteção, higienização, organização dos ambientes, descarte correto de materiais, manutenção de equipamentos, adoção de protocolos e capacitação periódica das equipes fazem parte de uma cultura de prevenção que deve acompanhar as diferentes atividades profissionais.
Segurança não é responsabilidade de uma pessoa só
A adoção de cuidados pelo médico-veterinário é fundamental, mas a prevenção de acidentes não pode ser atribuída exclusivamente ao comportamento individual do profissional. Estrutura física, equipamentos disponíveis, composição e treinamento das equipes, protocolos institucionais e organização do trabalho também interferem diretamente nas condições de segurança.
“Conhecimento técnico e capacitação são fundamentais, mas nenhum profissional trabalha isolado das condições que lhe são oferecidas. Segurança envolve ambiente, estrutura, equipamentos, protocolos, equipe e avaliação dos riscos. É uma responsabilidade que precisa ser compartilhada entre todos os envolvidos na atividade”, destaca Zacchi.
Essa perspectiva também evita uma interpretação equivocada quando acidentes acontecem. A existência de riscos inerentes a determinadas atividades não permite, por si só, estabelecer causas ou responsabilidades. Cada ocorrência precisa ser analisada a partir de suas circunstâncias específicas.
Proteção profissional também está em debate no Congresso
A exposição de médicos-veterinários a determinados riscos também é objeto de discussão no Legislativo. O Projeto de Lei nº 5.706/2025, em análise na Câmara dos Deputados, propõe regulamentar a concessão dos adicionais de insalubridade e periculosidade a médicos-veterinários e profissionais de atividades correlatas expostos a agentes biológicos, químicos e físicos nocivos à saúde.
A matéria tramita na Comissão de Saúde da Câmara e aguarda designação de relator.
Outro projeto apresentado neste ano reforçou a discussão. O PL nº 2.666/2026 também trata do reconhecimento do direito aos adicionais de insalubridade e periculosidade para médicos-veterinários e outros profissionais envolvidos em atividades relacionadas à saúde animal. Em julho, a proposta foi apensada ao PL 5.706/2025 e passou a tramitar conjuntamente.
Para o CFMV, a discussão sobre riscos ocupacionais ultrapassa o debate sobre adicionais remuneratórios. Ela chama atenção para a necessidade de reconhecer as particularidades das diferentes áreas de atuação e de assegurar condições compatíveis com os riscos existentes em cada ambiente profissional.
“Reconhecer que determinadas atividades envolvem risco não significa dizer que acidentes sejam inevitáveis. É justamente o contrário. Significa conhecer esses riscos para preveni-los e estabelecer condições adequadas de trabalho. Quando discutimos valorização da Medicina Veterinária, a proteção de quem exerce a profissão também precisa estar nessa agenda”, afirma Zacchi.
O CFMV acompanha a tramitação das duas proposições no Congresso Nacional e atua para que as particularidades do exercício da Medicina Veterinária sejam consideradas durante a análise das matérias. O trabalho inclui o acompanhamento das movimentações legislativas e a produção de subsídios técnicos que possam contribuir para o debate parlamentar sobre as condições de trabalho e os riscos presentes nas diferentes áreas de atuação profissional.
A atuação integra o trabalho de articulação institucional do Conselho junto ao Poder Legislativo, que acompanha proposições com impacto direto sobre a Medicina Veterinária e a Zootecnia. No caso dos projetos relacionados à insalubridade e à periculosidade, o objetivo é contribuir tecnicamente para uma discussão que considere a diversidade da profissão e as diferentes condições às quais os médicos-veterinários podem estar expostos no exercício de suas atividades.
Mais do que reconhecer a existência de riscos, o debate sobre proteção profissional passa pela capacidade de identificá-los, preveni-los e estabelecer condições de trabalho compatíveis com cada atividade. Para o CFMV, colocar essa discussão na agenda pública e contribuir tecnicamente para seu avanço também faz parte da valorização da Medicina Veterinária.
