Animais

10/10/2011 – Atualizado em 31/10/2022 – 9:04am

O ato de medicar cães e gatos caminha para uma transformação: a criação de uma central para monitorar reações adversas causadas por remédios e produtos veterinários. É a principal resposta do governo às centenas de mortes provocadas pela vacina antirrábica distribuída pelo Ministério da Saúde no ano passado.
Hoje, se um animal toma um remédio e aparece todo empipocado, com dificuldade de respirar, diarreia e sangramento, muito provavelmente o veterinário fará o que pode para reverter o quadro e o dono gastará o que tem para salvar o bicho. A maioria dos casos termina aí.
Em geral, nem o médico nem o proprietário telefonam para o laboratório. Quando ligam, recebem, no máximo, um reembolso ou um bride. No vácuo da legislação, os fabricantes não têm obrigação de apurar o caso nem de passar a informação adiante. É isso que deve mudar.
O texto que cria a central prevê que os laboratórios tenham telefones e e-mails para receber reclamações dos usuários, investiguem esses problemas e encaminhem relatórios ao governo em até 15 dias. Caberá ao Ministério da Agricultura decidir se serão necessárias medidas corretivas.
É claro que organismos vivos terão sempre reações inesperadas. Isso lei nenhuma será capaz de mudar. Mas é preciso saber se estamos diante de um caso isolado e imponderável ou de uma fórmula farmacêutica que provoca reações em série, que só acabam ocultas por nossa desorganização legal e incapacidade de centralizar informações.
No caso dos animais, monitorar as reações adversas se torna ainda mais urgente diante de uma segunda falha da legislação. Ao contrário do que acontece com produtos de uso humano, os medicamentos veterinários não precisam passar por ensaios clínicos. Isso significa que não têm de ser testados na espécie em que serão usados antes de irem ao mercado. Como todos nós sabemos que camundongos não são cães, também podemos deduzir que uma droga tenha efeitos diferentes nos dois animais.
Foi isso o que aconteceu com a vacina antirrábica. Análise feita pela USP e revelada pela Folha na última terça-feira indica que ela tinha três vezes mais proteínas bovinas do que suas similares. O que se imagina é que, em concentrações elevadas, essas proteínas tenham desencadeado reações extremas, matando ao menos 210 animais.
A vacina havia sido testada em camundongos e não houve reação alérgica, possivelmente porque a dose é inoculada dentro da cavidade abdominal das cobaias, levando a uma eliminação mais rápida da droga do que quando ela é administrada no músculo ou sob a pele. Não há dúvida de que o problema só veio à tona porque a vacina foi usada em uma campanha de massa.
Ao longo do ano, no entanto, milhares de animais são vacinados e medicados nas clínicas. Quantos deles morreram por reações adversas? É isso que todos nós temos o direito de saber.